Motoristas de ônibus do Rio trabalham
no limite, aponta jornal RIO
- 16/01/2010 11h49 DA
REDAÇÃO REVISTA
DO ÔNIBUS
FOTO:
RODRIGO CARVAS - DIVULGAÇÃO Na quinta-feira, 59 pessoas ficaram feridas
em dois acidentes com ônibus – num deles, o motorista dormiu
ao volante; no outro, infartou. Por lei, os condutores profissionais
podem trabalhar no máximo sete horas por dia. Entretanto,
segundo alguns deles, a realidade é diferente.
– Tenho de fazer três viagens por dia, mas muitas vezes não
consigo terminá-las no período de sete horas e sou obrigado
a trabalhar além do permitido. Tudo isso em um ambiente muito
quente e barulhento. É estresse direto – afirma o motorista
José Roberto Cardoso, de 48 anos, que trabalha na linha 415,
Usina- Leblon.
Situação semelhante vive Carlos Eduardo, que trabalha na linha
220, no trajeto Usina-Praça Mauá.
– Não temos tempo nem de ir ao banheiro, somos vigiados por
câmeras e fiscais, que parecem não entender nosso ambiente
de trabalho – reclama.
No caso da cobradora Cirlene Alexandrina Soares, os reflexos
da rotina estressante de sua profissão, segundo ela, foram
sentidos na saúde.
– Quando comecei a trabalhar aqui, minha pressão sanguínea
era de 11 por 7. Hoje ela beira o 17 por 10, tenho até de
tomar remédio, e outro dia cheguei a desmaiar – relata.
O motorista Alex de Mello, diz que são desrespeitados direitos
básicos do trabalhador comum.
– Não há horário para almoço. Temos que aturar um monte de
passageiro estressado, descontando na gente. Vira e mexe,
uma galera invade o carro, e o dono da empresa nos cobra pela
passagem.
Outro cobrador, que preferiu não se identificar, reclama que
nem a doença é respeitada.
– Não adianta chegar com atestado médico, se não trabalharmos
temos aquele dia descontado.
O diretor social do Sindicato dos Rodoviários do Município
do Rio de Janeiro, Wanderley Furtado, afirma que as empresas
de ônibus têm parcela de culpa por acidentes como os de quinta-feira:
– Obrigam o motorista a dobrar. Se não segue a orientação
da empresa, é retaliado. Outra sujeira que fazem é mandar
motoristas cobrarem as passagens nos ônibus menores. Se não
permitem falar no celular ao volante, não poderiam permitir
contar o troco e pegar o dinheiro.
De acordo com Furtado, a “antes muito procurada vaga de motorista
em empresas de ônibus”, hoje é “esnobada”.
– Tem assalto toda hora, queimam ônibus. Crescem, cada vez
mais os casos de dores na coluna, hemorróidas e alcoolismo.
Muitos profissionais estão se tornando pedreiros, mecânicos.
De acordo com a Federação das Empresas de Transporte de Passageiros
do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor), a retirada de centenas
de vans ilegais das ruas fez com que fossem colocados 1.3
mil novos ônibus em circulação no Rio, gerando uma demanda
de cinco novos funcionários para cada um dos coletivos – dois
motoristas, dois cobradores e um funcionário de manutenção.
Para suprir as novas vagas as empresas fizeram um acordo com
o governo estadual, criou mais de 6,5 mil postos de trabalho
que serão preenchidos em breve.
Empresas admitem trabalho além das sete horas permitidas
O vice-presidente do Sindicato das Empresas de Ônibus do Rio
de Janeiro (Rio Ônibus), Octacílio Monteiro, admitiu que alguns
motoristas trabalham além do tempo permitido.
– Por conta do trânsito, às vezes eles trabalham mais de sete
horas. Há os engarrafamentos e complicações. Todos nós estamos
sujeitos a essas variáveis.
Entretanto, segundo Octacílio, são pagas horas extras, a todos
eles.
– Trabalham sete horas por dia, seis dias por semana. Faz
hora extra quem quer. A lei autoriza isso – afirmou.
Sobre os acidentes em que um motorista dormiu e outro sofreu
um infarto enquanto dirigiam, a Fetranspor, pronunciou-se:
“São fatalidades, não é todo dia que um motorista de ônibus
infarta ou dorme ao volante. A maior causa dos acidentes é
o excesso de velocidade e outras práticas associadas à condução
do veículo. Estamos investindo pesadamente para reverter este
quadro. Para isso, desenvolvemos em parceria com a Fundação
Getúlio Vargas (FGV), o Programa Motorista Cidadão, que trabalha
a questão comportamental, e também somos parceiros do Detran
nas autoescolas gratuitas, iniciativa pioneira voltada para
o desenvolvimento e aprimoramento técnico do rodoviário”.
O secretário municipal de Transportes, Alexandre Sansão, atribui
boa parte do problema às más condições de trabalho dos motoristas.
Ele anunciou que, ainda este ano, o prefeito Eduardo Paes
vai baixar decreto determinando a troca de toda a frota municipal
de ônibus (8.700 coletivos) por veículos modernos. A SMTR
espera uma média de mil ônibus renovados a cada ano, até 2016.
– O motor não poderá ficar na frente do ônibus. Imagine um
motorista dirigindo o dia inteiro com aquele barulho do seu
lado, com o motor esquentando suas pernas. Ele se estressa,
e aí acontecem as coisas que não devem acontecer. Vamos implantar
um novo padrão tecnológico. O câmbio, por exemplo, tem que
ser automático e chassis e suspensão tem que ser trocados
– diz .
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